Artigo: Ser político não é necessariamente ser eleitoralmente partidário
Por Chico de Paula
Certa vez fui perguntado se eu considerava a prisão do ex-presidente Lula como sendo política. "Sim!", respondi sem hesitar. E emendei: "toda prisão é política". "Mas e os homicidas comprovados?", indagou novamente o meu interlocutor. "Também são presos políticos, basta observar a classe, social, a cor da pele e o nível de instrução dos encarcerados no Brasil", respondi.
Mais recentemente eu escutei do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Roberto Barroso, que a decisão por cancelar as condenações de Lula não era política. Pensei que mesmo de pessoas teoricamente esclarecidas, como é o caso de Barroso, não é incomum escutar que essa ou aquela questão "é ou não política". Estão errados! Tudo é política, embora nem tudo seja partidário, pelo menos não no sentido eleitoral do termo.
Ser políticos é o que nos caracteriza como seres humanos. Embora outros seres possam se organizar em sociedades, como é o caso de algumas espécies de formigas e de abelhas, elas o fazem por puro instinto de sobrevivência. Diferentemente, só os seres humanos podem se organizar socialmente a partir da política que, repito, não se confunde com ser eleitoralmente partidário.
Negar a polícia é um erro, pois permite que as melhores pessoas se afastem desse campo, abrindo espaço para os aproveitadores. Assim, mesmo com a melhor das intenções (lembrando que de boas intenções o inferno está cheio) não é produtivo comparar os políticos com profissionais de saúde e educação, por exemplo, para mostrar como as remunerações daqueles são baixas em relação a estes.
Não existe dúvida nenhuma de que é um escárnio os vultosos salários dos políticos em relação a outros profissionais e que isso precisa urgentemente ser corrigido. Mas é importante lembrar que o que está em jogo é a demonização da política, inscrevendo-a, através do discurso, numa arena nebulosa, em que só pessoas mal intencionadas podem transitar, fato que não corresponde (ou pelo menos não deveria) com a realidade.
Essa semana, ao comentar sobre a trágica marcar de 500 mil mortes no Brasil decorrente da Covid-19, a cantora Ivete Sangalo disse que “não é sobre partidos, é [sobre] humanidade”. De fato, a questão até pode não ser sobre partidos políticos, mas a questão é sobre tomar partido, algo que somente os seres humanos, enquanto seres políticos, podem fazer.
E mesmo que fosse sobre partidos políticos, isso não seria (como não é) necessariamente ruim, pois só em ditaduras a organização em partidos diversificados não é possível. Nesse sentido, não é demais lembrar que a possibilidade de se organizar em partidos políticos foi uma conquista democrática importante no Brasil, que conheceu apenas duas agremiações partidárias durante os 21 da ditadura civil-militar.
Obviamente que eu não ignoro o profundo desalento da população brasileira com os políticos tradicionais, que se utilizam da arena política como espaço de promoção pessoal e, por vezes, para se locupletar com o dinheiro público. Mas é exatamente por esse motivo que nós devemos ocupar a arena política, impondo um novo estatuas, onde mal feitores, corruptos e aproveitadores não se criem.
É preciso restituir a política à sua função de arena pública de debate, como os gregos, pais da democracia, o fizeram um dia. É urgente lutar contra a apropriação indevida da política, contra a lógica do curral eleitoral. É fundamental expurgar destes espaços os coronéis e suas proles, afastar os corruptos, milicianos e aproveitadores de todas as ordens.
Uma das formas (embora não a única) de garantir isso é apostar na diversificação dos nossos representantes, elegendo ao Executivo e ao Legislativo um número maior de representantes de minorias, como mulheres, negros, indígenas, LGBTQI+, deficientes físicos etc. O "cidadão comum" (seja lá o que isso signifique) precisa de uma vez por todas ocupar a arena política sob o risco de continuarmos a perde-la para a barbárie!.
Chico de paula é Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em Políticas Públicas e bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), advogado e jornalista. Natural de Lago da Pedra (MA), radicado no Rio de Janeiro, onde reside desde 1999