Maranhão registra queda nas mortes violentas em 2021

Foram registradas mais de 1,9 mil mortes violentas no ano passado em todo Maranhão. Entre os tipos de crimes, latrocínio obteve maior aumento percentual.

O Maranhão registrou uma queda de 1,5% nas mortes violentas em 2021, em comparação com 2020. Os dados são do Monitor da Violência, levantamento do g1, com base em dados oficiais dos 26 estados e do Distrito Federal.

Em todo o ano passado, foram registrados 1.915 mortes violentas no estado - 30 a menos que em 2020. Estão contabilizadas as vítimas de homicídios dolosos (incluindo os feminicídios), latrocínios (roubos seguidos de morte) e lesões corporais seguidas de morte.

Em média, foram registrados quase 27 assassinatos a cada 100 mil habitantes. A diminuição dos assassinatos em 2021 retoma a tendência de queda registrada no país pelo Monitor da Violência desde o balanço de 2018.

Os homicídios dolosos (incluindo os feminicídios) obtiveram uma queda de 2,7 em 2021. Foram registrados 1.827 no ano passado contra 1.807 em 2021. Já entre os casos de lesão corporal seguida de morte, o levantamento apontou uma queda de 7,7%. Em 2021, foram registrados 13 casos e em 2020, 12 ocorrências.

Aumento nos latrocínios

Na contramão da queda do levantamento geral, o Maranhão registou no ano passado um aumento de 28% no número de latrocínios (roubo seguido de morte), em comparação a 2020.

Foram registrados 75 casos no ano passado, contra 96 em 2020. Entre os latrocínios registrados em 2021, está o triplo assassinato que aconteceu uma fábrica na região da Andiroba, na zona rural de São Luís, em 15 de janeiro.

Os três autuados invadiram uma fábrica de caixotes, onde renderam várias pessoas que estavam presentes no estabelecimento. As vítimas foram ameaçadas e espancadas pelos criminosos. Na hora do crime, os homens disseram que três vítimas eram de facção rival e por isso deveriam morrer.

Dados do país
O número de assassinatos no Brasil caiu 7% em 2021 na comparação com o ano anterior, segundo os dados divulgados nesta segunda-feira (21), pelo g1.

Em todo o ano passado, foram registradas 41,1 mil mortes violentas intencionais no país - 3 mil a menos que em 2020. É o menor número de toda a série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que coleta os dados desde 2007.

A única região que teve alta nas mortes violentas foi o Norte. Os estados de Amapá, Amazonas, Roraima e Rondônia estão entre os que tiveram os maiores aumentos em crimes desse tipo. O Amazonas lidera, com crescimento de 54,2% entre 2020 e 2021.

Motivos da queda
Especialistas do Núcleo de Estudos da Violência da USP e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública elencam alguns pontos para explicar os números no país:

- Profissionalização do mercado de drogas brasileiro: "Mercados criminosos equilibrados, com competidores que aprenderam a conviver entre si ou que descobriram formas de regulamentar a relação entre eles, tendem a reduzir o total de conflitos fatais. (...) A existência de regras e a criação de uma ampla rede de parceiros, que se expandiu com os contatos com criminosos de outros estados feitos nos presídios federais, ajudaram (o PCC) a se tornar um importante distribuidor de drogas e de armas para quadrilhas de outros estados, transformando o mercado de drogas brasileiro, que passou a replicar o modelo criminoso paulista, se organizando a partir dos presídios estaduais", diz Bruno Paes Manso, do NEV-USP.

- Maior controle e influência dos governos sobre os criminosos: "O próprio modelo de negócio criado por esses grupos tornou as lideranças das diversas gangues prisionais mais vulneráveis e sujeitas a pressões dos governos. Como parte delas estava presa, suas ordens dadas de dentro do sistema penitenciário para os territórios estavam sendo mais vigiadas e acompanhadas pelas autoridades. Os governos e sistemas de justiça estaduais vinham acumulando e trocando informações que permitiram agir para reduzir os conflitos e punir as lideranças mais truculentas dentro das prisões, que foram levadas a exercer um comando mais diplomático, racional e lucrativo", diz Bruno.

- Apaziguamento de conflitos entre facções: "Entre 2016 e 2017 vivemos uma guerra entre dois grupos criminosos, o PCC e o Comando Vermelho, e essa guerra se alastrou por todo o país, especialmente em estados do Norte e Nordeste. A gente tem um apaziguamento desse conflito em alguns territórios e, em outro, tem um certo monopólio de algum grupo. Quando um grupo único vai se consolidando no território, tende a reduzir o conflito", diz Samira Bueno, do FBSP.

- Criação de programas de focalização e outras políticas públicas: "Várias unidades da federação adotaram, ao longo dos anos 2000 e 2010, programas de redução de homicídios pautados na focalização de ações nos territórios. O Pacto Pela Vida, em Pernambuco, o Estado Presente, no Espírito Santo, e o Ceará Pacífico, no Ceará, são exemplos de projetos que buscaram integrar ações policiais e medidas de caráter preventivo. Ao longo dos anos, muitos governadores titubearam na manutenção de tais iniciativas, mas houve um aprendizado organizacional das forças de segurança que mostra que, quando existe planejamento, integração e metas, os macros objetivos são mais rapidamente alcançados", afirmam Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, do FBSP. Os especialistas também citam outras políticas públicas que estão sendo desenvolvidas pelas unidades da federação, focadas na integração das forças policiais com o fortalecimento dos mecanismos de inteligência e investigação.

- Redução do número de jovens na população: "Tem a ver com as mudanças demográficas, algo que a gente já vem apontando há alguns anos no Atlas da Violência, que é a reduçao do número de jovens na populacão. É sabido que a maior parte da violência letal atinge jovens do sexo masculino. E o Brasil esta diante de uma grande mudança demográfica", afirma Samira.

- Criação do SUSP e mudanças nas regras de repasses: "Em 2018, o governo federal conseguiu aprovar, depois de tramitar por 14 anos, a lei que criou o Sistema Único de Segurança Pública, responsável por regulamentar a Constituição de 1988 no que diz respeito à integração e eficiências das instituições de segurança pública. Ainda em 2018, (...) houve uma mudança nas regras de repasse de recursos arrecadados pelas Loterias da Caixa que, na prática, fez com que cerca de 80% de todo o dinheiro da segurança repassado para estados e Distrito Federal de 2019 a 2021 tenha as loterias como origem e, com isso, novos recursos puderam ser destinados à área", dizem Samira e Renato.